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A Construção Desconstruída de Tiago Iorc: A Depressão e a Tutela Estatal

Atualizado: 6 de Ago de 2020


Autor: Aron Vitor Fraiz


A música possui um caráter universal, de modo que exerce importante papel nas sociedades, culturas e suas relações interpessoais, possibilitando a expressão que não podem ser ditos de forma direta, a qual mobiliza nossos sentimentos em forma lírica. Seja como for, cada indivíduo guarda em si uma memória de uma música, a qual lhe representa e expressa sentimentos que outrora permaneciam em sigilo em nossa essência.


Neste sentido, Tiago Iorc lançou o álbum "Reconstrução" em 05 de maio de 2019, o qual ganhou destaque principalmente por tratar-se do primeiro álbum visual do artista, que assume um caráter de possibilidade de experimentação, de conexão entre o artista e o seu público, levando a outros níveis de exploração artística, articulando formas estético-narrativas próprias.[1]


Dessa forma, as 13 faixas do álbum estão entrelaçadas entre si e contam uma história melancólica, interpretada por ele e pela modelo Michele Alves nos videoclipes. No entanto, merece maior análise a música que inaugura o álbum: "Desconstrução" – que inclusive lhe rendeu o Grammy Latino 2019, na categoria de Melhor Música Brasileira – cujo tema central é a solidão, especialmente nas redes sociais.


Em primeiro momento, se percebe uma clara referência ao clássico de Chico Buarque "Construção", composta em 1971. A letra da canção de Chico remete à demonstração de uma sociedade em desordem cívica, que reprime o personagem de exercer sua liberdade, em uma narrativa de caráter cíclico e comparativo devido ao fato de todos os versos possuírem exatamente doze sílabas poéticas, cuja acentuação rítmica recai sobre a sexta e a décima segunda sílaba dos versos, tornando-os, portanto, alexandrinos perfeitos.[2]


Ao personagem que "subiu a construção como se fosse máquina", se viu perdido na rotina monótona e "morreu na contramão atrapalhando o sábado".


Em uma espécie de atualização moderna, a narrativa de "Desconstrução" se estrutura em quatro estrofes, todas elas de dez versos, com cada verso que dispõem dez silabas poéticas, remetendo a uma percepção cíclica da música, pela qual se inicia com a personagem se vendo na tela escura de seu celular.


Percebe-se que a personagem está em negação da sua própria personalidade, se entregando a uma persona diferente de si, vestindo um ego – que não lhe satisfez – dramatizando o vil da rotina. Assim, para atingir tal fim, imaginou que fosse dádiva divina. No entanto, encontrou somente a própria solidão.


Em sequência, há uma dramatização da sua existência comum, criando fantasias no brio da rotina que acabou por transformar de sua pele sua sina. O resultado foi um estilhaço de si em cacos virtuais, em aparências tão iguais, de singularidades em ruína, se liquidando em sua própria liquidez. Poderia ter sido diferente, mas o fim da narrativa apresenta uma menina em depressão.

Na modernidade líquida, os relacionamentos são facilmente rompidos, devido aos laços fracos, caracterizado como ''relacionamentos de bolso'', em que se podem ser usados quando necessários e, depois, quando se perde o interesse, podem ser guardados. As interações entre as pessoas já se iniciam em uma situação de insegurança e vulnerabilidade para construir vínculos. Mesmo assim, buscamos autoafirmação nas redes sociais, evitando qualquer resquício de exposição de humanização.


"Desconstrução" aborda a depressão que, conforme dados recentes da World Health Organization está enquadrada como uma das doenças mais comuns em todo mundo, com mais de 264 milhões de pessoas afetadas, com um aumento em 20% só na última década.[3] A questão é que o problema da proliferação da depressão e de outras doenças mentais como doenças ocupacionais está intimamente ligado às transformações gerais dos laços sociais na contemporaneidade.


O problema se agrava em decorrência da atual pandemia do novo vírus do COVID-19 que estamos enfrentando. A disseminação do novo coronavírus, as incertezas sobre como controlar a doença, além da imprevisibilidade do tempo de duração, caracterizam-se como fatores de risco à saúde mental. Em suma, o fato de estar em quarentena impõe um isolamento compulsório, fato que contribui em impactos negativos aos transtornos depressivos.


Neste contexto, a Constituição da República reconhece, junto ao art. 196, a saúde como direito de todos e dever do Estado em garantir mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Outrossim, na medida em que há um quadro contemporâneo pela judicialização das questões sociais no brasil, se torna relevante na reflexão nas inter-relações entre os direitos sociais com as políticas públicas.


Apesar da existência dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), serviço aberto e comunitário integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS), se vislumbra que a tentativa de ajustar o indicador CAPS/100.000 habitantes encontra como principal dificuldade as barreiras geográficas e tecnológicas.[4] Ainda, se tem um SUS cujo foco está no atendimento físico em contraponto ao psicológico, apresentando em um atendimento pouco eficaz de pessoas com problemas de saúde mental.[5]


As políticas públicas de saúde, em especial às que visem na abordagem da depressão, são de enorme importância para o bem-estar social. A construção de uma política de informação e comunicação dos sintomas e prevenções da depressão como uma doença mental grave e tratável encontram-se no eixo central da proteção à saúde, em conformidade à previsão constitucional.


O Direito, portanto, na discussão das políticas públicas, possui a função de um mecanismo capaz de assegurar maior participação do Estado como verdadeiro garantidor da saúde ao povo, principalmente ao que se tange das doenças mentais, como depressão e ansiedade, as quais encontram-se cada vez mais frequente, agravadas pelas redes sociais, conforme anteriormente explicado.


As normas jurídicas levam as políticas públicas por um processo democrático, uma vez que, por meio de regras procedimentais que disciplinem consultas e audiência públicas e a publicidade dos atos administrativos[6], possibilitem a estar abertas aos inputs de quem realmente esteja no polo ativo da problemática.


Pelo presente estudo, depreende-se que através da arte, se torna possível reavaliar e discutir as problemáticas que permeiam a sociedade. Tiago Iorc, com "Desconstrução", aborda a depressão, doença mental que requer atenção e cuidado por parte do Estado, na medida em que a este é imposto pela garantia de saúde a todos. Dessa forma, impõe-se a aplicação de políticas públicas mais democráticas, a fim de direcionar aludidas questões àqueles que sentem e entendem sobre o assunto, de modo a permitir maior efetividade à possibilidade de tratamento dessa doença, ainda tratada por muitos como tabu.


Sobre o Autor:


Aron Vitor Fraiz é Graduando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Membro do Grupo de Estudos em Análise Econômica do Direito. Pesquisador de Iniciação Científica. No seu tempo livre, Aron aprimora suas habilidades artísticas e é um super-fã do Tiago Iorc.

[1] VECCHIA, Leonam Casagrande Dalla; IUVA, Patrícia de Oliveira. Os Ecos Temporais do Álbum Visual. 40º Congresso Brasileiro de Ciências de Comunicação – Curitiba/PR, 2017, p. 10. [2] MAGALHÃES, Marcela Ulhôa Borges. Poética e Semiótica: u estudo sobre a lírica de Chico Buarque. Estudos Linguísticos, São Paulo, 40 (3), p. 1804-1813, set-dez, 2011, p. 11. [3] WORLD HEALTH ORGANIZATION. Depression, 30 de janeiro de 2020. Disponível em: < https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression>. Acesso em: 01 maio. 2020. [4] FERREIRA et al. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): Uma Instituição de Referência no Atendimento à Saúde Mental. Revista Saberes, Rolim de Moura, vol. 4, n. 1, jan./jun., p. 72-86, 2016, p.83. [5] JUNIOR, Vagner França Florentino. Depressão e Ansiedade: Políticas Públicas para tratamento, efeito nudge e aplicação da AED. Análise Econômica do Direito: Resultado de pesquisa do GRAED. Belo Horizonte: Editora Senso, 2020, p. 363. [6] COUTINHO, Diogo Rosenthal. O direito nas políticas Públicas. In: A política pública como campo multidisciplinar. MARQUES, Eduardo; FARIA, Carlos Aurélio Pimenta de. (Org). São Paulo: Editora Unesp, 2013, p. 18.

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