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A Imaginação Literária de Martha Nussbaum

Atualizado: 2 de Jul de 2020


Para Martha Nussbaum, as obras literárias convidam os seus leitores a se colocarem no lugar do outro, assumindo suas experiências.[1] Essa imaginação literária, por sua vez, permite que o leitor, enquanto operador do Direito, seja capaz de “participar imaginativamente da vida dos personagens literários e assim, ter emoções, julgamentos e reflexões relacionados com essa participação”.[2]


Igualmente, Martha Nussbaum, em sua obra Poetic Justice, defende que a imaginação literária é essencial à justiça, bem como à cidadania, à igualdade e à democracia.[3] De acordo com a autora, a literatura pode apresentar um efeito subversivo frente à ideia de racionalidade expressa pela ciência econômica utilitarista. Por meio desse efeito, a literatura deve formar parte de uma educação em favor de uma racionalidade mais ampla que a ideia de indivíduo como maximizador de utilidades – homem econômico.[4]


Além disso, a autora “reconhece que falta um ingrediente essencial de humanidade na lógica racionalista dominante que podia ser denominado de visão poética do mundo”.[5] Em sua obra, Nussbaum, portanto, enfatiza a necessidade de humanizar o Direito e de não se basear tanto na teoria econômica utilitarista. Para isso, coloca a Literatura enquanto fator de humanização.[6]

Outrossim, “o Direito na Literatura, enquanto perspectiva teórica, aponta para a construção de um imaginário de direitos nos textos literários, intensificando a compreensão da sociedade e de seus discursos de poder”.[7]


De fato, “quando lemos livros, assistimos filmes, ouvimos histórias, e participamos de outras experiências estéticas, uma parte importante de nosso engajamento é imaginar o conteúdo das narrativas”.[8] Essa potencialidade de imersão em um mundo ficcional pode ser denomina de “transporte”.


Destaca-se, todavia, uma das objeções feitas por Fábio Perin Shecaira, no sentido de que “as evidências empíricas da influência da literatura não são fortes”.[9] Isso porque, em pesquisa realizada por Shen-yi Liao e Tamar Gendler, constatou-se que os indivíduos podem mostrar tendências maiores ou menores de imersão em razão de uma ampla gama de circunstâncias – resistência imaginativa.[10]


Em virtude disso, dentre outras objeções, James Seaton teceu algumas críticas à Nussbaum, uma vez que ela peca ao não delimitar a imaginação literária.[11] Isto é, que tipo de literatura pode humanizar de forma mais eficiente o operador do Direito?


Não se olvida, no entanto, que, na mesma medida em que a compreensão literária elimina os estereótipos que criam os ódios coletivos, ela também pode incorporá-los e reafirmá-los.

[1] NUSSBAUM, Martha. La imaginación literaria en la vida pública. ISEGORIA – Revista de Filosofía Moral y Política, n. 11, pp. 42-80, 1995, p. 44. Disponível em: http://isegoria.revistas.csic.es/index.php/isegoria/article/view/254. Acesso em: 30 jun. 2020. [2] DUARTE, Isabel Cristina Brettas; MADERS, Angelita Maria. O Direito e a Literatura cruzando os caminhos da justiça poética: uma estrada sem fim? 2016. Anais... IV CIDIL – Censura, Democracia e Direitos Humanos, v. 4, n. 1, pp. 162-181, jul. 2016. Disponível em: http://rdl.org.br/seer/index.php/anacidil/article/view/103. Acesso em: 30 jun. 2020. [3] DUARTE, Isabel Cristina Brettas; MADERS, Angelita Maria. O Direito e a Literatura cruzando os caminhos da justiça poética: uma estrada sem fim? 2016. Anais... IV CIDIL – Censura, Democracia e Direitos Humanos, v. 4, n. 1, pp. 162-181, jul. 2016. Disponível em: http://rdl.org.br/seer/index.php/anacidil/article/view/103. Acesso em: 30 jun. 2020. [4] No original: “La literatura y la imaginación literaria pueden tener un efecto subversivo frente a la idea de racionalidad expresada habitualmente por la ciencia económica utilitarista. Por ello, la literatura debe formar parte de una educación en favor de una idea de racionalidad pública más amplia que la idea de individuo como maxímizador de utilidades”. NUSSBAUM, Martha. La imaginación literaria en la vida pública. ISEGORIA – Revista de Filosofía Moral y Política, n. 11, pp. 42-80, 1995, p. 42. Disponível em: http://isegoria.revistas.csic.es/index.php/isegoria/article/view/254. Acesso em: 30 jun. 2020. [5] SILVA, Ana Isabel Gama e. O conceito de Justiça Poética em Martha Nussbaum. 2006. Dissertação (Mestrado). Estética e Filosofia da Arte. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2006, p. 157-162. Disponível em: repositorio.ul.pt › bitstream › philosophica29. Acesso em: 30 jun. 2020. [6] VIVANCO, Arturo Felipe Onfray. Aportes de “Justiça Poética” de Martha Nussbaum al movimiento “Derecho y Literatura”. Revista de Derecho del Consejo de Defensa del Estado, n. 10, 2003. Disponível em: http://www.cde.cl/estudiosybiblioteca/wp-content/uploads/sites/15/2016/05/REVISTA-DE-DERECHO-10.pdf. Acesso em: 30 jun. 2020. Destaca-se, neste ponto, que Martha Nussbaum recebeu críticas de James Seaton, em seu artigo Law and Literature: Works, Criticism, and Theory. Nele, o autor afirma que Nussbaum peca ao não delimitar a imaginação literária. Para tanto, pontua que “Nussbaum bypasses, for example, the obvious problem of deciding what books deserve to be called ‘great’ by simply avoiding the question. In doing so, however, she raises an even larger difficulty. It is hard enough to make a case that ‘the canon’ endorses any particular point of view; it would seem to be a much more difficult task to discover what ‘the literary imagination’ in general proposes on any specific topic. Does "the literary imagination" encompass the imagination represented in best-sellers? In Harlequin romances? In the westerns of Louis L'Amour or Zane Grey? Poetic Justice doesn't bother to ask such questions, let alone supply even provisional answers to them”. SEATON, James. Law and Literature: Works, Criticism, and Theory. Yale Journal of Law & the Humanities, v. 11, n. 2, pp. 479-507, 1999. Disponível em: https://digitalcommons.law.yale.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1218&context=yjlh. Acesso em: 30 jun. 2020, p. 484. [7] TRINDADE, André Karam; STRECK, Lenio Luiz (Org.). Direito e literatura: da realidade da ficção à ficção da realidade. São Paulo: Atlas, 2012, p. 104. [8] No original: “A number of psychologists interested in the capacities that underlie imaginative engagement with fiction have explored the phenomenon through the concept of transportation. To be transported is, roughly, to feel immersed in a fictional world, so much so that the real world temporarily ceases to feel accesible”. LIAO, Shen-yi; GENDLER, Tamar Szabó. Pretense and imagination. Advanced Review, v. 2, pp. 79-94, jan./feb. 2011, p. 85. Disponível em: https://www.academia.edu/945484/Pretense_and_imagination. Acesso em: 30 jun. 2020. [9] SHECAIRA, Fábio Perin. A importância da literatura para juristas (sem exageros). ANAMORPHOSIS – Revista Internacional de Direito e Literatura, v. 4, n. 2, pp. 357-377, jul./dez. 2018. Disponível em: http://rdl.org.br/seer/index.php/anamps/article/view/423. Acesso em: 29 jun. 2020. [10] LIAO, Shen-yi; GENDLER, Tamar Szabó. Pretense and imagination. Advanced Review, v. 2, pp. 79-94, jan./feb. 2011, p. 84. Disponível em: https://www.academia.edu/945484/Pretense_and_imagination. Acesso em: 30 jun. 2020. [11] Para tanto, pontua que “Nussbaum bypasses, for example, the obvious problem of deciding what books deserve to be called ‘great’ by simply avoiding the question. In doing so, however, she raises an even larger difficulty. It is hard enough to make a case that ‘the canon’ endorses any particular point of view; it would seem to be a much more difficult task to discover what ‘the literary imagination’ in general proposes on any specific topic. Does "the literary imagination" encompass the imagination represented in best-sellers? In Harlequin romances? In the westerns of Louis L'Amour or Zane Grey? Poetic Justice doesn't bother to ask such questions, let alone supply even provisional answers to them”. SEATON, James. Law and Literature: Works, Criticism, and Theory. Yale Journal of Law & the Humanities, v. 11, n. 2, pp. 479-507, 1999. Disponível em: https://digitalcommons.law.yale.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1218&context=yjlh. Acesso em: 30 jun. 2020.

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