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A Sétima Arte sob as lentes da diversidade: novas regras para premiação de Melhor Filme


Autora: Sabrina Maria Fadel Becue


Em setembro de 2020, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou novas regras para a indicação de filmes na categoria mais cobiçada: Oscar de Melhor Filme. A partir de 2024 serão elegíveis para a disputa apenas as produções que atenderem os requisitos de representatividade de grupos minoritários, envolvendo etnia ou grupo racial pouco representado (asiático, latino/hispânico, negro, nativo-americano, norte-africano, nativo havaiano), mulheres, LGBTQI+, pessoas com deficiência.


Foram criados quatro critérios e o filme deve preencher pelo menos dois para ser indicado, são eles: a) representatividade de grupos minoritários no elenco (principal e/ou coadjuvante) ou no enredo; b) liderança criativa e equipe do projeto que respeitem a diversidade; c) acesso e oportunidades na indústria cinematográfica, através de programas de capacitação e vagas de emprego destinadas aos grupos minoritários; d) representatividade de grupos minoritários nos cargos de liderança em marketing, publicidade e distribuição.


Ao instituir essas regras, o Oscar seguiu os passos de outra renomada premiação, o BAFTA. A mudança é também resposta à pressão vinda das redes sociais com a #OscarsSoWhite.


Os novos padrões apontam para uma mudança cultural, uma vez que o assunto veio à tona e obrigou a Academia a assumir um compromisso em favor da diversidade. No entanto, é cedo para festejar. Os critérios não são tão rigorosos e várias das últimas produções que alcançaram o tapete vermelho, mesmo sendo dirigidas e estreladas por homens brancos, satisfaziam as exigências.


De todo forma, o debate é digno de um Oscar. Alguns críticos atacaram a interferência que as quotas de diversidade podem ocasionar na construção de roteiros e seleção de elenco, em prejuízo à liberdade criativa. O argumento não é tão convincente tendo em vista que toda produção que almeja a estatueta de ouro é talhada para agradar os integrantes da Academia – aqueles que votam nas indicações – e a composição é majoritariamente de homens brancos (estimasse que 93% dos membros eram, até 2016, brancos e 76% homens). Um dos problemas reside na falta de diversidade nesta composição, apesar dos avanços nos últimos anos, que retroalimenta uma visão míope do mundo.


Nell Scovell roteirista de sérias televisivas de sucesso – Sabrina, a aprendiz de feiticeira, Os Simpsons, N.C.I.S – expõe a hipocrisia de Hollywood no livro “Só as Parte Engraçadas” (Harper Collins, 2019). Sem perder o bom humor, a autora relata episódios chocantes de assédio sexual e moral contra mulheres nas salas de roteiristas e sets de filmagem. É difícil defender a meritocracia quando as pessoas que avaliam currículos ou recomendam as contratações integram o “clube do bolinha” e não compreendem que “emoções são universais, mas experiências, não. (...). Históricos diferentes geram experiências diferentes. Uma sala que exclui metade da população humana, além de pessoas de diferentes etnias e da comunidade LGBTQ+, sempre terá menos material para usar.” (SCOVELL).


Um Oscar para as ótimas produções que serão inspiradas pela pluralidade!


Sobre a autora: Doutora e Mestre em Direito pela Universidade de São Paulo. Graduada em Direito pela Universidade Federal do Paraná.

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