• NÔMA

Albert Camus: Absurdo, Justiça e Arte

Atualizado: 6 de Ago de 2020


Autor: André Luiz Pereira Spinieli


Nascido em solo argelino no ano de 1913, Albert Camus é certamente um autor cujo pertencimento de suas obras é reivindicado por diferentes áreas do conhecimento, sobretudo em três específicas: a filosofia, o direito e a literatura. Ele próprio não se nomeava jurista ou filósofo, mas tão somente um literato. Diferentemente de Jean-Paul Sartre, com quem cultivou significativos anos de amizade antes de um rompimento movido por questões ideológicas de apoio ou rechaça a movimentos políticos de sua época, não se colocava no panteão dos autores vinculados à corrente do existencialismo filosófico francês.


O autor jamais escondeu sua paixão em estudar escritores clássicos da literatura mundial em suas aproximações com o conceito polissêmico de justiça. Essa relação fica evidente a partir de uma anotação localizada em seu Caderno IV, no qual assinala que Dostoievski, Kafka, Malraux, Balzac e outros autores foram fundamentais para despertar em si a consciência do absurdo[1]. Em seu pensamento, o absurdo é a expressão de um estado humano de não questionamento sobre as condições de um mundo em que pairam injustiças. Não por outro motivo, Camus se preocupava com a busca pela felicidade, inclusive indicando a solidariedade entre os homens como forma de superação da condição a que todos estamos expostos.


No entanto, foi na arte literária que o autor enxergou uma forma de colocar em suspensão a situação do absurdo e buscar respostas concretas aos questionamentos fundamentais da existência humana. Se pudermos afirmar a perseverança de uma tradição filosófica existencialista tipicamente camuseana, certamente ela é parte de um contexto mais amplo, que ultrapassa os limites da filosofia pura e encontra na manifestação literária a sua melhor forma de expressão. O fio que permite a relação das temáticas da justiça, da arte e do existencialismo em Camus é exatamente a nossa vivência em um mundo privado de luzes e ilusões, em que nos sentimos como um estrangeiro[2].


O escritor franco-argelino não deixou uma obra em que retratava uma teoria política ou mesmo um pensamento jurídico de forma destacada, embora toda sua produção estivesse vinculada a uma nova forma de enxergar tais áreas, relacionadas àquilo que se convencionou chamar de "ética do absurdo". Em Camus, arte, política, direito e ética são categorias dissolvidas em uma proposta literato-filosófica que se vale da literatura como intermédio para encontrar significação à existência humana[3]. Diante das incertezas do curso da vida – ou da transitoriedade das certezas –, o grande triunfo do autor é enxergar na arte uma forma de colocar em questionamento a situação absurda, em que respostas simplórias e insuficientes são apresentadas aos mais capciosos problemas da realidade.


Para além do apego com os clássicos literários mundiais, a proximidade de Camus com os temas da justiça e da arte pode ser vista como a utilização de tais instrumentos como um despertar para a condição humana, que permite aos homens a tomada de consciência sobre o absurdo. Em última instância, a relação entre direito e arte em Camus representa a aposta do autor na lucidez do homem para reagir às falhas em termos de realização de direitos[4].

Sobre o autor:


André Luiz Pereira Spinieli é Mestrando em Direito pela Universidade Estadual Paulista (UNESP, campus de Franca); Professor de Direitos Humanos na mesma Universidade; Professor de Filosofia no Cursinho Popular Dr.ª Jurema Gomes Xavier (FDF - Franca); Bolsista CAPES/DS.

[1] CAMUS, Albert. Carnets. In: Oeuvres completes. Paris: Gallimard, 2006. [2] CAMUS, Albert. A peste. Trad. Valerie Rumjanek. 16. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006. [3] SIQUEIRA, Ada Bogliolo Piancastelli. Notas sobre direito e literatura: o absurdo do direito em Albert Camus. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2011, p. 121. (Direito e Literatura, v. 4) [4] De acordo com Caio Jesus Granduque José, "Como explicar estes tempos de era dos direitos, em que se eleva a dignidade da pessoa humana ao status de princípio estruturante das ordens jurídicas, reconhecendo-se e positivando-se um considerável catálogo de direitos humanos, mas cuja síndrome de inefetividade permite pensar que se vive, na realidade, numa era dos direitos nominais, a não ser pelo absurdo?". JOSÉ, Caio Jesus Granduque. A construção existencial dos direitos humanos. 2009. 194 f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de História, Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista, Franca, 2009, p. 41.

116 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo