Ensaio sobre a cegueira, a obra de Saramago que nos faz refletir sobre a atual pandemia


Por Bruna Lietz e Isadora Bombardeli


Ensaio sobre a cegueira é uma obra de ficção escrita pelo português José Saramago, tendo sua primeira publicação ocorrido em 1995. Saramago, foi vencedor do Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1998.


O romance foi base para o roteiro cinematográfico de Blindness, tendo o seu produtor Niv Fichman adaptado a história de "Ensaio Sobre a Cegueira" para o cinema em 1999. Conforme relatos disponíveis em sites especializados em filmes, Niv Fichman e o roteirista Don McKellar conversaram com José Saramago que, entre as exigências feitas para vender os direitos de adaptação, condicionou que no filme não se identificasse em qual País a história se passava. O filme foi dirigido por Fernando Meirelles e abriu o festival de Cannes no ano de 2008, sendo Saramago convidado à première de Blindness, todavia, por problemas médicos o autor não pôde realizar a viagem, tendo o diretor ido até Lisboa para mostrar-lhe o longa-metragem.


O livro conta a história de uma pandemia decorrente de uma cegueira branca e cuja causa e origem são desconhecidas. A doença infecta todos de forma vertiginosa, exceto a personagem retratada como a Mulher do Médico, narrando-se o desenrolar dos acontecimentos sob seu olhar. Visando conter o avanço da doença, as pessoas infectadas são encaminhadas a um manicômio, inclusive a Mulher do Médico, que se passa por doente para poder acompanhar o marido que cegou.


A descrição dos fatos ocorridos dentro do manicômio é bastante impactante. Nesse momento da obra, é retratado uma conjectura onde um grande grupo de pessoas passam a lutar entre si para terem suas necessidades vitais satisfeitas. Os instintos primários e de sobrevivência são despertados na busca de sobreviver, dominando o ambiente a selvageria, egoísmo e o caos.


Após o desenrolar do último conflito interno do manicômio, as portas do deste encontravam-se abertas. A Mulher do Médico e os demais personagens encontram-se livres dos muros manicomiais. Contudo, ao deixarem o local a Mulher do Médico viu que a doença havia contaminado a todos, reinando o caos e a destruição, já não havendo mais o mundo e a realidade que era conhecida.


A leitura do romance de Saramago traz para o leitor, que desenvolve uma maior ligação com a história, inúmeras sensações que vão desde um aspecto mais literal: como abrir os olhos e poder ver; os questionamentos reflexivos sobre as relações sociais e humanas.


A obra ficcional, embora escrita há mais de 25 anos, tem uma ligação íntima com a atual pandemia de Covid-19, cujas decorrências podem ser vistas sob diversas perspectivas se analisadas em conjunto ao contexto narrado no livro.


Cerca de 1 ano após o início da pandemia Covid-19, o colapso emocional, e a pressão sobre a sociedade permanece a afetar o mundo. Através do romance de José Saramago, é possível ter uma visão literária dos acontecimentos no mundo e perspectivas do que está ocorrendo.


O romance pode proporcionar uma forma de reflexão sobre o momento, isto é, as metáforas da obra remetem diretamente à realidade em que estamos submersos. A obra de José Saramago revela o ser humano de forma nata, em meio a um cenário caótico, lutando por sua sobrevivência, proporcionando a possibilidade de traçar um paralelo entre o romance e comportamento da sociedade no último ano de pandemia.


Nesta senda, o Ensaio Sobre a Cegueira nos mostra que uma quarentena pode despertar na civilização sentimentos extremistas, dentre eles o egoísmo. Assim, o colapso atual explicitou uma cegueira através do comportamento individualista daqueles que abriram mão do enclausuramento para satisfazer seus interesses pessoais.


Ao longo da leitura, o autor coloca em xeque a racionalidade humana, o que nos separa dos animais, dessa forma se coloca em pauta o descaso com o próximo, pensado em salvar a si mesmo. A dicotomia entre o alto índice de mortalidade que a pandemia vem causando no país e o comportamento de uma parcela da civilização que não vê importância em interromper a disseminação da cepa, traduz uma cegueira em relação à realidade.


Ao mesmo que a narrativa expõe uma clara relação entre o que a (des)ordem governamental pode causar a uma civilização quando exposta ao caos, ela remete à importância da solidariedade e de conseguir visualizar aquilo que para muitos é invisível. Ainda que seja uma leitura por vezes carregada de anseios, pode deixar-nos uma mensagem de esperança.


Em outra perspectiva, a impactante ficção de Saramago, se vista em uma perspectiva mais textual, encontra diversos pontos de contato com a realidade atual imposta pela Covid-19, que colocou o mundo em uma grande pandemia. Assim como a cegueira, a Covid-19 também é uma doença de causa ainda não identificada claramente, tendo os primeiros casos surgido na China e espalhando-se por todo o mundo.


A difusão global da doença colocou em xeque o papel e as estruturas do Estado. Ao iniciar a cegueira branca, é possível perceber na narrativa por parte das autoridades uma tentativa de controlar a difusão da mesma, impondo às pessoas a realização de quarentena e redirecionando um determinado grupo de pessoas infectadas a uma espécie de manicômio.


Assim como escrito por Saramago, a imposição de medidas de isolamento social tem sido uma das estratégias adotadas pelos Estados para combater o avanço da Covid-19, tendo tais medidas, em certa medida, relevado pontos sombrios dos humanos como acima refletivo. O que chama atenção, neste ponto, é que na história as pessoas que dependem do Estado vivenciam uma descrença nesse que, ao final, acaba por falhar por completo, pois todos cegaram.


No contexto atual, especialmente o brasileiro, é possível perceber a adoção de medidas de contenção na propagação dos vírus, mas que não evitaram um colapso de serviços públicos e os discursos incoerentes adotados pelos diversos entes federados. Ainda, assim como no livro, é possível perceber uma espécie de fracasso gradual de funções públicas, especialmente às relacionadas à saúde, previdência e seguridade social.


Essas referências, aliás, estão intimamente relacionadas ao descontrole sobre a forma como a Covid-19 realmente se propaga, que, somado ao nosso atual contexto social, não coloca um ser humano a salvo de contrair esta doença.


Na história de Saramago, todavia, existia a Mulher do Médico, que não foi contaminada, narrando os fatos transcorridos e guiando, ao menos o grupo de pessoas que compunha, até os momentos finais do livro. Se pensarmos nesse ponto específico, quem representaria no atual contexto fático o guia para passarmos por estes momentos? A ciência e todos os cientistas que já existiram e existem. Essa legião de pessoas, que usam seu tempo de vida para criar um conjunto de conhecimentos inexistentes, são hoje os guias da humanidade.


O não colapso total da nossa sociedade, tal como ocorrido na ficção de Saramago, deve-se aos avanços científicos que permitiram o tratamento e o controle da Covid-19. Saramago traz em seu livro: “A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”, hoje temos esperança por termos pesquisadores e cientistas.


Ao mesmo tempo que a ciência seja luz para sociedade, os humanos em seu íntimo podem perceber melhor quem realmente somos - medos, vergonhas, inseguranças, preconceitos, egoísmos. Hoje, uma das mais inquietantes passagens do livro nos faz mais sentido: “Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”.


Sobre as autoras: Bruna Lietz é Mestre em Direito pela PUCRS; Isadora Bombardeli é graduada em Direito pela Universidade La Salle.


Referências/indicações:

https://www.youtube.com/watch?v=Y1hzDzAvJOY

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2105200810.htm

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