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Mank e o irresistível poder da narrativa


Autor: Antônio Carlos Gonçalves Filho


É extremamente difícil apreciar Mank, o filme de 2020 do diretor americano David Fincher, sem ter um conhecimento bastante razoável quanto ao contexto em que foi feito e o evento específico que dramatiza. Ou seja, se a questão de quem foi o verdadeiro responsável pela autoria do roteiro do filme Cidadão Kane (1941) e se os nomes Herman J. Mankiewicz, Orson Welles e William Randolph Hearst não significam nada para você, existe uma grande chance que isso vai prejudicar sua capacidade de se importar com o que está acontecendo. No entanto, existe uma beleza inegável na forma como a película, escrita pelo pai do diretor, Jack Fincher, conta a história de como e por que Mankiewicz (interpretado pelo sensacional Gary Oldman) teria escrito o roteiro de Kane e, principalmente, o filme se revela particularmente interessante como um reflexo do poder da narrativa cinematográfica, e de como ela pode nossa percepção do real mais do que a própria realidade em si.


Para explicar melhor meu ponto, creio que é pertinente resumir do que esse filme se trata. Mank trata da discussão quanto a quem mereceria mais crédito pela autoria do roteiro do clássico Cidadão Kane, considerado por muitos críticos e cinéfilos como “o maior filme de todos os tempos”, teria sido seu diretor, Orson Welles, ou o roteirista Mankiewicz (a hipótese de que ambos mereceriam igual crédito pela escrita do texto parece estar além da capacidade cognitiva dos que entram nessa discussão). A solução para esse debate é simples para Jack Fincher, Kane foi escrito primariamente por Mankiewicz porque era a vingança elaborada dele ao empresário William Randolph Hearst (encarnado por Charles Dance em uma atuação luciferiana) por ter criado uma campanha de fake news contra o candidato democrata a governador da California, Upton Sinclair.


O interessante dessa versão dos fatos é que ela não se baseia, de forma alguma, em fatos. Não existe nada que indique que Mankiewicz se importava com as eleições da Califórnia, que dirá que apoiaria um candidato progressista (Mankiewicz era um conservador, na vida real). Em outras palavras, a versão da história contada por Fincher é descaradamente uma ficção. Uma versão adulterada dos fatos que servem para convencer o espectador de um lado do debate, exatamente como as fake news utilizados para impedir que Sinclair ganhasse a eleição no contexto do filme.


Existe uma verdade exposta nessa série de mentiras e narrativa de Mank é completamente baseada nessa revelação: narrativas se sobrepõe a fatos, a apresentação de uma história, o drama de um personagem, a torcida por um herói, o ódio por um vilão. Todos esses fatores criam uma verdade emocional que pode estar mais ou menos conectada com o mundo real e é por meio dessa mentira que um artista conta sua verdade. A arte é o reflexo do real aos olhos do seu autor e o que parece intrigar Fincher em Mank é exatamente como essa verdade não precisa se comprometer com qualquer fidelidade a fatos.


Tais perspectivas também podem se aplicar a política, em que o engajamento emocional supera facilmente a racionalidade, algo que sempre foi perfeitamente compreendido por políticos autoritários, não é à toa que uma das frases mais famosas do ministro de propaganda fascista, Joseph Goebbles é “uma mentira repetida vezes o bastante se torna uma verdade”. David Fincher, que já definiu um set de filmagem como uma “ditadura fascista” também parece entender isso perturbadoramente bem. Ele sabe que a mesma lógica que pode convencer uma multidão de espectadores que King Kong tem 30 metros, pode ser usada para fazer pessoas acreditarem que uma pandemia mundial não existe, ou que eleições foram fraudadas sem qualquer necessidade de prova. Mank mostra o poder que uma mentira bem contada pode ter dentro de um filme que é, ele próprio, uma mentira muito bem elaborada, afinal, como disse no começo desse texto, é preciso ter um conhecimento bastante razoável quanto ao contexto histórico de Mank para saber que a trama do filme é uma mentira.


Se por trás de toda a ilusão da arte, existe uma verdade que o autor busca passar a quem a vivência, então talvez a que Fincher quis expor em Mank é sempre ter um grau de ceticismo quanto as narrativas que nos são passadas, mesmo com todo o impacto emocional que elas possam ter. Provavelmente o diretor estava ciente da ironia de que essa verdade se aplica, também, a narrativa de seu próprio filme.

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