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Rede de Ódio, Fake News e a manipulação das massas


Autora: Ariê Ferneda


O filme polonês “Rede de Ódio”, lançado em 2020 e dirigido por Jan Komasa e escrito por Mateusz Pacewicz, narra a trajetória de Tomasz que, em meio a dificuldades financeiras e ao ser expulso da Universidade por cometer plágio, se oferece para trabalhar de forma voluntária em uma espécie de agência de relações públicas que utiliza das redes sociais para influenciar pessoas, a depender dos objetivos almejados.


O primeiro desafio colocado nas mãos de Tomasz refere-se à criação de uma estratégia capaz de fazer com que uma celebridade da vida fitness perca sua popularidade nas redes sociais. Para isso, a proposta do personagem consiste na criação de fóruns médicos e perfis nas redes sociais para disseminar informações falsas a respeito de um produto vendido pela “vítima” da agência.


Com o sucesso de sua estratégia e diante do encerramento das atividades da celebridade, foi contratato pela aludida agência. Seu próximo desafio foi encontrar os pontos fracos de Rudnicki, candidato a prefeito de Varsóvia, para, igualmente, acabar com sua popularidade.


Com efeito, Tomasz inicia a criação de uma “rede de ódio”, mobilizando radicais e pessoas comuns através da disseminação de notícias falsas por meio de perfis e páginas criadas para referido fim. Como parte de sua estratégia para “derrubar” o candidato, o personagem cria um vínculo - por meio de vídeo game (sem revelar sua identidade) - com Guzek, um jovem de origem simples, que aparentemente não apresenta qualquer traço ou indício de comportamento violento contra as pessoas, e que se expõe nas redes sociais demonstrando suas habilidades no manuseio de armas de fogo e suas posições políticas.


Nesse contexto inicia-se a radicalização das ações de Tomasz, uma vez que ele influencia Guzek a agir, considerando que “as forças das trevas estão ameaçando a Europa”. Essas “forças das trevas” consistiriam na “invasão” islâmica na Europa que ameaça os valores fundamentais. Com isso, Tomasz convence Guzek a agir em benefício para o continente, para resistir à sua suposta queda/colapso.[1]


Assim, formam-se grupos, movidos por notícias falsas e sem um líder aparente, cujo ódio é alimentado pela mobilização nas redes sociais. Como parte final das estratégias de Tomasz (alerta de Spoiler!), uma tragédia acontece: Rudinicki, enfim, é abatido, assim como outras pessoas, em um atentado orquestrado por Tomasz. Porém, o herói da história é o próprio Tomasz.


Com base nisso, a presente análise tem por fim tratar da formação dessas massas movidas por fake news, ainda que de forma opinativa e não exauriente. Sendo assim, inicialmente, atenta-se ao fato de Tomasz ter criado um vínculo com Guzek através, inclusive, de palavras como “sempre vão menosprezar pessoas como nós”, “somos vítimas das circunstâncias”, “mandaram a gente se foder”, “você sempre será um ninguém para eles!”, referindo-se à elite.


Percebe-se, assim, a criação de uma massa, tomado pela emoção criada em Varsóvia. Nesse sentido, adentra-se aos apontamentos de Sigmund Freud a respeito da psicologia das massas, uma vez que ao ser inserido nessa formação, a massa confere ao indivíduo uma alma coletiva, “graças à qual sentem, pensam e agem de modo inteiramente diferente do que cada um deles sentiria, pensaria e agiria isoladamente”. Ademais, aponta que “há ideias e sentimentos que só surgem ou se transformam em ações nos indivíduos ligados numa massa”. Além disso, “na massa o indivíduo é colocado sob condições que lhe permitem se livrar dos recalcamentos de suas moções de impulso inconscientes”.[2]


Desaparece, assim, o sentimento de responsabilidade (o indivíduo cede aos instintos antes reprimidos) e da personalidade consciente, bem como os sentimentos e os pensamentos são orientados na mesma direção da massa por meio da sugestão e do contágio.[3]


É o que se percebe a partir das ações de Guzek, que se coloca em uma posição irracional, de exclusão de sua singularidade, em prol de uma causa, talvez por existir nele uma necessidade de estar em harmonia com a massa e não em sua oposição.


No caso específico do filme polonês, essas massas são formadas a partir de fake news. Assim, nota-se como a (des)informação possui um poder destrutivo e de manipulação. Há também notório uso de cyber troops, cujas estratégias consistem em (1) espalhar propaganda pró-governo ou pró-partido; (2) atacar a oposição ou montar campanhas de difamação; (3) distração ou desvio de conversas ou críticas para longe de questões importantes; (4) divisão de condução e polarização; e (5) suprimir a participação por meio de ataques pessoais ou assédio.[4]


Essas estratégias, por sua vez, são utilizadas também por governos para espalhar notícias falsas, conforme aponta pesquisa realizada pela Oxford Internet Institute, em que 75% dos 70 países examinados se utilizam da manipulação da mídia e da desinformação para enganar usuários, e 68% deles buscam atingir dissidentes políticos, a oposição ou jornalistas (caso também verificado no filme).


Todas essas ações perpetradas por meio do uso da internet representa um desafio global crescente e uma ameaça aos direitos humanos fundamentais. Por sua vez, na tentativa de evitar os efeitos dessa desinformação, algumas iniciativas de checagem dos fatos foram criadas, por exemplo, “Aos fatos” que usa a “Fátima” para checagem das informações no WhatsApp[5], “E-farsas”[6], bem como a “Agência Lupa”[7], sendo esta a primeira agência de fact-checking do Brasil.


Todas essas tentativas de combate à desinformação, no entanto, são posteriores à veiculação da informação. Exige-se, portanto, cautela do usuário, devendo ter em mente os efeitos inconscientes que as fake news podem causar, ou seja, a formação de massas em que os indivíduos acabam excluindo, ainda que temporariamente, a sua personalidade consciente.


Sobre a autora:


Ariê Ferneda é graduanda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Fundadora do NÔMA.

[1] Neste ponto percebe-se na formação das massas, aqui representada na pessoa de Guzek, o irreal tem precedência sobre o real; aqueles as influencia com tanta força quanto este. Além disso, ela é inclinada a todos os extremos. Assim, quem desejar agir sobre ela não precisa apresentar uma ponderação lógica de seus argumentos. Bastou Tomasz repetir por diversas vezes que “as forças das trevas estão ameaçando a Europa” que Guzek aceitou e cumpriu os “deveres” que lhe foram designados. FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. Porto Alegre: L&PM, 2019, p. 51, 54. [2] FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. Porto Alegre: L&PM, 2019. [3] Nesse sentido, ‘somos “contagiados’ pelo estado afetivo de outras pessoas numa massa”, a partir da identificação. SILVA, Tayane Cristine Ferreira Clemente da; CAMINHA, raquitan de Oliveira. O Fascismo e as Massas: uma análise da teoria Freudiana sobre o contágio do ódio. Problemata: Revista Internacional de Filosofia, v. 10. n. 5, p. 178-187, 2019. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/problemata/article/view/47439/29116. Acesso em: 11 ago. 2020. No mesmo sentido: FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. Porto Alegre: L&PM, 2019, p. 47. [4] COMPUTATIONAL PROPAGANDA RESEARCH PROJECT. The Global Disinformation Order 2019 Global Inventory of Organised Social Media Manipulation. University of Oxford. Oxford Internet Institute. Disponível em: https://comprop.oii.ox.ac.uk/wp-content/uploads/sites/93/2019/09/CyberTroop-Report19.pdf. Acesso em: 11 ago. 2020. [5] AOS Fatos. Fátima no WhatsApp. Disponível em: https://www.aosfatos.org/fatima/. Acesso em: 11 ago. 2020. [6] E-FARSAS. Acabando com Fake News desde 2002! Disponível em: https://www.e-farsas.com/. Acesso em: 11 ago. 2020.

[7] AGÊNCIA Lupa. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/. Acesso em: 11 ago. 2020.

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