The House With Laughing Windows e a insustentável ignorância do fascismo

Por: Antônio Carlos Gonçalves Filho





The House With Laughing Windows é um filme de terror italiano de 1976, dirigido por Pupi Avati. Se trata de um excelente exemplo de um giallo, filmes de terror italianos que envolvem mistério e assassinatos. A obra conta a história de Stefano (interpretado por Lino Capolicchio), um restaurador de obras de arte que veio a uma pequena vila para restaurar uma pintura semi destruída em uma igreja local. Lá, ele aos poucos descobre que existem pessoas que tem interesse em impedir a restauração da pintura, bem como os segredos sombrios envolvendo o autor da obra, o misterioso Legnani, conhecido como “o artista da agonia”.


O filme já começa de forma brutal mostrando a tortura e assassinato de um homem desconhecido, acompanhado de uma sinistra poesia declamada pela voz sóbria e gutural de Legnani. No entanto, ao contrário de outros exemplos mais famosos de giallo, como Profondo Rosso, de Dario Argento e The New York Reaper, de Lucio Fulci, não existem muitas mortes em The House With Laughing Windows, com os momentos de maior brutalidade sendo reservado apenas para o começo e fim da película. Na maior parte do tempo, acompanhamos apenas Stefano descobrindo o passado traumático e aterrador daquela aparentemente inocente vila, culminando na revelação de que o quadro que foi contratado para restaurar era uma pintura de um assassinato real cometido pelas irmãs de Legnani, que sequestravam pessoas, as prendendo na isolada “casa de janelas sorridentes” para que seu irmão capture em suas pinturas a expressão de dor e sofrimento de suas vítimas. A grande revelação final do filme, é a descoberta que as irmãs ainda estão matando pessoas, mantendo a memória de seu irmão “viva” com a morte as mortes. Elas acreditam que seu irmão irá, em breve, retornar para elas.


O mais chocante, no entanto, é a descoberta que o restante da vila busca se manter intencionalmente ignorantes quanto as atividades das assassinas, com Stefano descobrindo isso da pior maneira, enquanto agoniza, esfaqueado, após um ataque das irmãs, implorando por ajuda, mas com ninguém se atrevendo a abrir a porta para ele. Eis o motivo pelo qual Stefano era desencorajado em restaurar o afresco, a pintura revelava a presença das irmãs, um passado ainda presente que os moradores da vila buscavam ocultar.


The House With Laughing Windows é sobre um passado monstruoso que assombrou uma população e na revelação que esse terror não está morto, que se encontra apenas oculto, sobrevivendo pelo próprio interesse da comunidade em ocultar sua presença. É um filme sobre o desinteresse confrontar os traumas do passado, mesmo que tais traumas ainda persistam vivos e ameaçadores. Existe uma alegoria na trama desse filme, que se torna mais clara quando colocamos em perspectiva o fato de que, apesar de ser uma película lançada em 76, a trama se passa na década de 50, poucos anos depois da queda do fascismo italiano representado por Benito Mussolini. A obra usa da linguagem de um filme de terror para meditar a respeito da presença de movimentos fascistas na Itália depois da derrota de Mussolini na Segunda Guerra Mundial.


Assistir o filme sob essa perspectiva é o que torna a obra intrigante e, ainda mais, assustadora. Se trata da expressão simbólica de algo que deveríamos estar aprendendo agora: movimentos fascistas não brotam de um instante de insanidade coletiva de uma população, mas crescem das entranhas da sociedade em que pertencem. Após a queda do fascismo italiano, por exemplo, foi criado um novo grupo de extrema direita na Itália, o Ordine Nuovo, inspirado na obra de autores fascistas, como Julius Evola. De fato, The House With Laughing Windows foi lançado meros três anos depois que a organização foi declarada ilegal pelo governo italiano... apenas para que seus membros formassem uma nova organização com ideais idênticos, o Ordine Nero. Fascistas nunca deixaram de existir na Itália e o filme reflete muito bem como a presença desses movimentos não são memórias ou fantasmas, mas uma força viva e adaptável, presente em sua brutalidade.


No Brasil, temos sentido recentemente os efeitos dessa presença oculta. O discurso do presidente Bolsonaro não surgiu nas aparições do deputado na televisão ou em sua candidatura na televisão. Se trata da mera expressão “oficial” de heranças autoritárias que nunca realmente desapareceram no cenário político brasileiro, encontrando formas no fascismo de Getúlio Vargas, no movimento Integralista brasileiro e, claro, na própria ditadura militar. O fato de existirem tantos exemplos na história brasileira, apenas ajuda a reforçar a mensagem que hoje é deixada pelo filme de terror em discussão. Mesmo quando governos autoritários abandonam o governo, seus discursos, suas ideologias e, principalmente, seus seguidores, se mantêm bastante vivos. Mais do que isso, são normalizados, com as implicações mais obviamente violentas de seu discurso sendo ocultadas ou convenientemente ignoradas.


Aceitar esse fato está no coração do que torna The House With Laughing Windows tão relevante no contexto atual. A recente derrota de Donald Trump nas eleições americanas parece ter levantado um genuíno otimismo quanto a retirada do presidente Bolsonaro da presidência. Gritos de impeachment estão sendo ouvidos nas ruas, demandando a retirada do incompetente capitão fascista de sua posição como presidente da República. E existe uma genuína chance de que, eventualmente, esses gritos sejam ouvidos, seja na forma de um processo de impeachment, ou de uma embaraçosa derrota eleitoral. No entanto, é perigoso e, acima de tudo, ilusório acreditar que isso significa um retorno a “normalidade democrática”. O discurso bolsonarista, que nada mais é do que o discurso autoritário e conservador que ecoa a séculos no Brasil, vai prosseguir bastante vivo, vitimizando pessoas e sobrevivendo da nossa incapacidade de reconhecer seu verdadeiro, violento, potencial. O fascismo sempre sobreviveu dessa normalização de seu discurso e continuará prosperando caso não sejamos capazes de reconhecer sua presença em nossa cultura política.


Do contrário, Legnani seguirá bem vivo no Brasil, se alimentando de novas imagens de sofrimento e morte, acompanhado das tenebrosas gargalhadas de suas irmãs.


Sobre o autor: Antônio Carlos é Doutorando em Direito pela Universidade Federal do Paraná. Amigo e apoiador da NÔMA - Norma e Arte.


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