Uma imersão no silêncio: da inclusão nas sensações à aceitação


Autor: Marcos Guilherme Rodrigues Mafra


Dentre sons metalizados simulando aparelhos auditivos até as batidas fortes de uma bateria durante um show de rock metálico, o filme “O Som do Silêncio” (“The Sound of Metal” – em que a tradução literal é “o som do metal”) promete e cumpre uma grande imersão para o telespectador, garantindo uma incrível experiência sonora e inclusiva.


Trata-se da história de um jovem baterista, Ruben (interpretado por Riz Ahmed), que possui uma banda com sua namorada, a vocalista Louise (interpretada por Olivia Cooke). Ocorre que Ruben, em um determinado momento, começa a perder gradativamente sua audição, tendo que lidar com o fato de que não poderá mais tocar a bateria, desistindo da banda e de uma turnê, caso queira manter sua audição parcial.


Sua namorada Lou então o convence a integrar uma comunidade surda em um sítio, para que este aprenda a viver como um surdo, como se comunicar e se aceitar. Aqui o telespectador é apresentado ao Joe, líder da comunidade, que assume a missão de acolher o Ruben.


O filme trabalha também de forma paralela, porém não menos importante, sobre relacionamentos tóxicos, o uso de entorpecentes, vício, sexualidades e depressão, que ao decorrer do filme se apresentam de forma muito natural ao enredo, com a finalidade de educar o telespectador sem chocar.


Tudo isso seria uma receita ideal para ser apenas um ótimo drama sobre um jovem lidando com sua aceitação, porém o filme se mostra muito além da mera dramaturgia: trata-se de uma obra de arte que tenta incluir o telespectador para que este sinta como o protagonista, escute como o protagonista e aprenda sobre uma nova realidade junto com protagonista.


Além de trazer uma pauta que por muitas vezes é ignorada, o filme traz uma mensagem completamente diferente da usual em relação à surdez, principalmente se pensarmos que vivemos uma sociedade extremamente capacitista. Um dos ápices do clímax do filme é uma conversa entre o protagonista e o líder da comunidade surda que o acolheu, em que presenciamos um apontamento em relação ao caminho da aceitação: não considerar a surdez uma deficiência, apenas uma outra forma de viver o mundo, que não existe nada para ser “consertado”.


O enredo traz uma representatividade completa, principalmente a partir do momento que presenciamos a ambientação do sítio, transitando em cenas que demonstram ensinamentos de vida, aceitação e empatia entre os membros da comunidade, até a importância da linguagem de sinais, a infância e o respeito.


A interpretação da língua de sinais é tão importante para a construção do enredo que se percebe nitidamente a primazia do trabalho de expressão corporal trabalhada pelo elenco, principalmente pelo protagonista Riz Ahmed, que teve sua atuação indicada para o Oscar.


O diretor do filme é Darius Marder que não possui outros projetos ficcionais em seu histórico, porém já apresenta detalhes técnicos excelentes e uma produção de grande magnitude.


O filme é um dos favoritos para premiação dentre a categoria técnica de som (contemplando a edição e mixagem de som), por todo o trabalho técnico incrível desenvolvido que consegue incluir o telespectador na experiência. Por isso, temos que vangloriar o trabalho de Nicolas Becker, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Carlos Cortés e Phillip Bladh que foram os responsáveis por cuidar de toda a técnica de som do filme.


Se você busca um filme inclusivo e imersivo, com uma temática que te tire da zona de conforto e que te garanta uma experiência: “O Som do Silêncio” é a escolha certa. O filme está disponível na plataforma da Amazon Prime e está indicado para seis categorias do Oscar: melhor filme, melhor ator principal, melhor ator coadjuvante, melhor roteiro original, melhor som e melhor edição.

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